A mulher e a educação no Brasil

Por Luciane dos Santos, Professora de Literatura Brasileira e Pesquisadora da Escrita Literária Feminina

Sou professora e sempre falo para minhas alunas: “se hoje você está aí sentada ao lado de um garoto, foi porque muitas mulheres lutaram por este e outros direitos”, pois a educação feminina nem sempre foi assim aqui no Brasil.
A primeira escola fundada para se ensinar a ler e escrever é de 1549. Nela os jesuítas tinham a intenção de formar somente a elite masculina. As mulheres poderiam, quando muito, ter somente a educação da catequese, pois estavam destinadas ao lar: casamento, trabalhos domésticos, cantos e orações. Já entre os séculos XVI (16) e meados do XVIII (18) a base da educação jesuítica, na maior parte das vezes, era somente para os meninos e tinha como principal finalidade ensinar a ler, escrever e contar, ao passo que às meninas, ensinava-se a bordar, costurar, lavar, ter “bons modos”, como discrição e recato, porque as funções sociais da mulher se restringiam a ser “boa mãe e esposa”.
Enquanto os rapazes de classes sociais mais ricas, quando com mais idade, saíam para estudar em Portugal e cursar Direito ou Teologia, as mulheres ainda se familiarizavam mais com as agulhas do que com a pena. Quando foram formadas as primeiras escolas no Rio de Janeiro, Recife e São Paulo, elas se destinavam apenas para o sexo masculino. Logo, os papéis entre homens e mulheres foram claramente definidos no que se refere à educação brasileira.
Somente aos poucos, as meninas passam a frequentar as escolas, todavia tais instituições eram separadas por sexo, tanto por alunos e alunas, quanto por professores e as poucas professoras existentes. Foi somente em 1827, autorizada à abertura de escolas públicas para mulheres aqui no Brasil. É a primeira vez no país que o direito feminino de frequentar escolas é institucionalizado. Basicamente, as escolas femininas de primeiras letras, permitiam o aprendizado das noções básicas de cálculo, ler e escrever, por que mais do que isso, elas seriam um “perigo para o lar”. Enquanto os meninos aprendiam geometria, as meninas aprendiam costura, às vezes, complementada por bordado e uma língua estrangeira. Como por exemplo, o idioma francês, já que isso significava sinal de status e tal saber poderia proporcionar à moça um “melhor casamento”.
Entre 1830 e 1840 foram criadas as escolas normais públicas, que, primeiramente, também eram frequentadas somente por homens. A segregação sexual era transparente e absurda, mesmo para aquela época, pois a separação dos meninos e meninas era feita por dias, prédios ou turnos diferenciados. O convívio entre meninas e meninos não era recomendável em um mesmo espaço público.
Somente com a partir da República (1889), inicia-se a renovação no sistema educacional no Brasil. Ocorreram mudanças nas escolas Primárias, Secundárias, Normais e no Ensino Superior Artístico e Técnico. A formação do professor, principalmente do ensino primário, tornou-se importante, com o aumento da demanda escolar.  A Escola Normal foi fundada em 1880 e a identidade feminina foi vinculada à vocação natural para o magistério.
As escolas mistas só surgiram na primeira metade do século XX, por razões econômicas, haja vista que sairia custoso para o Estado sustentar dois sistemas de ensino. Atribuíram às professoras uma conotação de maternidade, de forma que o magistério feminino era encarado como uma extensão da tarefa doméstica e maternal. Assim, não era vindo do acaso o empenho em formar mulheres para o cargo de professoras para atuarem nas escolas recém-formadas.
As mulheres de camadas sociais menos favorecidas, cabia à formação dos novos trabalhadores do país, como auxiliar a desfazer as impressões negativas deixadas pela escravidão. Cabia às mães a tarefa de orientação dos filhos e filhas, na manutenção de um lar afastado dos distúrbios e perturbações do mundo exterior.  Por isso, a educação feminina não poderia ser imaginada sem a formação cristã e sem a associação da professora à figura materna.
Com a chegada de imigrantes e o crescimento dos setores sociais levam a uma expectativa de crescimento da escolarização e induzem a saída dos homens da sala de aula, em busca de outras profissões. A identificação da mulher com o trabalho de professor, que hoje parece muito natural, à época foi motivo de críticas, que as classificavam como menos inteligentes e despreparadas. Outra questão que associava o magistério ao trabalho feminino é o fato de o professor trabalhar com uma carga horária diferenciada e a possibilidade de ser uma ocupação transitória, permitindo que a mãe e esposa pudessem desempenhar também esse papel, por ser um trabalho de um só turno.
Enfim, durante o século XIX, ocorreu a construção de muitos colégios normais, tanto públicos quanto privados, religiosos ou laicos, localizados em muitas províncias e estados. Disciplinas como matemática, português, geografia nacional, história do Brasil e geral, sociologia, trabalhos manuais, catecismo, dentre outras, eram ensinadas.
Mas foi somente em 19 de abril de 1879, a Lei Leôncio de Carvalho deu direito às mulheres ao ingresso no ensino superior no Brasil nos cursos de Medicina, Ginecologia, Obstetrícia, Cirurgia dentária e Farmácia, porque antes, só se estudassem fora do país, o que era quase impraticável e, mesmo quando ocorria, retornando ao Brasil, tinham muitas dificuldades de desempenhar a profissão estudada.
Ainda assim, o processo para que o sexo feminino começasse a frequentar as universidades foi muito lento. A primeira brasileira a se graduar foi Maria Augusta Generosa Estrela em 1882, em Medicina, mas a faculdade foi nos Estados Unidos.
Já no início do século XX, outras disciplinas (psicologia, puericultura e higiene escolar), também passam a integrar os currículos. A economia doméstica também foi integrante dessas escolas, ensinavam-se conceitos e práticas da administração do lar.
Interessante que somente por volta dos anos de 1970 que acontece uma abertura do sistema universitário brasileiro no que se refere ao público feminino. A maioria das universitárias daquele tempo, tinha maior interesse em cursos de graduação relacionados às Ciências Humanas, o que constituiu base importante para que se desenvolvesse, um campo de estudos e pesquisas sobre a mulher, levando-a a apoiar reinvindicações contemporâneas relacionadas ao ensino.
Enfim, apenas nos anos de 1990, ocorre um processo de reformas educacionais que considera a educação instrumento fundamental para a diminuição das diversas desigualdades, representando um grande avanço. Atualmente, o número de mulheres nas academias brasileiras, na maioria das vezes, é maior do que a do sexo masculino.

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Escolas Agrupadas Capela do Socorro

Foto: BOL Fotos (Uniformes escolares no século passado)

 


 

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Luciane dos Santos

(Professora de Literatura Brasileira e Pesquisadora da Escrita Literária Feminina)

 

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